A Bela e a Fera

Era uma vez, um príncipe muito bonito, que vivia rodeado de riqueza e beleza. Porém, ele não sabia tratar bem as pessoas, era rude, e isso magoava quem ele mais gostava.

Ele não sabia ser diferente. Então, para amenizar seu sofrimento, ele tomava poções mágicas que lhe permitiam viver outra realidade, uma ilusão. Onde tudo era belo e alegre.

Veio o tempo que ele se cansou daquilo tudo, da vida ilusória e decidiu nunca mais tomar poções mágicas. A realidade foi muito dura. Ele, então, percebeu que as pessoas não eram tão boas, algumas eram invejosas, outras interesseiras.

Ele, para evitar conflitos, então se isolou. De tudo e de todos. Foi viver em um castelo bem distante do vilarejo, rodeado de árvores e animais. Achou que poderia viver na solidão, e, assim, viveu por um bom tempo.

Até que um dia, o príncipe, em uma de suas idas à cidade, reencontrou uma princesa que há muito ele conhecia, ela a admirava pela sua beleza, porém, nunca havia tido coragem de conversar com ela. Ele a viu, lembrou de quando ele sonhava com ela, há muitos e muitos anos atrás. Ela continuava bela, porém madura e independente.

Ela também gostou dele, ele, pouco a pouco, lhe fez a corte. Se aproximou, e foi conquistando a princesa. Se esforçou para tratá-la bem, com um tratamento digno de uma princesa que ele achava que ela merecia.

Ela se encantou pelo príncipe meio gentil, meio fera. Por vezes ele se entregava para ela, demonstrando seu amor, e, em outros momentos deixava transparecer que, no fundo, ele era uma pessoa rancorosa, tinha raiva do mundo, das pessoas.

A princesa, que havia sido casada com um príncipe que lhe havia roubado a felicidade, estava curada, voltara a ser leve, alegre e apreciava as pequenas coisas belas da vida. Ele achava isso incrível, mas não conseguia acompanhar, era difícil aquela vibração caber em seu mundo sombrio.

Ele sabia que a princesa por ele havia se encantado, pois ela era sensível e lhe escrevia lindos poemas de amor. Ele se encantava com isso, mas tinha medo. Muito medo de se transformar em uma fera novamente, de magoar a princesa, assim como já havia magoado outras pessoas no passado.

Ele estava perdido. Não sabia lidar com a leveza, beleza e alegria que a princesa lhe proporcionava, com uma perspectiva de uma vida diferente, fora das masmorras do castelo, da sombra permanente que pairava sobre seu lar e seu coração.

Ela era luz, e ele sombra.

Até o dia em que ele, guiado pelo medo de amar e se ferir, mentiu, traiu a confiança da princesa. Ela então, caiu em prantos, se ajoelhou e chorou um amor que viu se quebrar, como quem vê um cristal precioso ser jogado na parede.

Ela cuidou daquele amor, cultivou, mas ele não soube manter seu jardim florido. Ela era primavera, e ele preferia viver em um eterno inverno infértil.

A princesa então se afastou, pois não mais suportaria viver com um príncipe que tinha tanto medo de ser feliz. Ela queria ser feliz.

O príncipe, então, viu a última pétala da última roseira de seu jardim cair por terra, como que em um último sopro, o amor sincero de uma bela mulher lhe fugisse do coração.

Ele sofreu, disse que ia mudar, prometeu que tudo ia ser diferente. E, quando se deu conta de que a princesa não mais lhe daria outra chance, percebeu que, mais uma vez, tinha agido errado, e se arrependeu de não ter regado o lindo jardim que ele tinha em suas mãos. Ao contrário, ele não regou, e a princesa foi ser fértil em outros terrenos onde sentisse que a terra poderia lhe desabrochar.

O príncipe, então, voltou ao seu castelo, vestiu sua capa, trancou as fechaduras, se abrigou na sombra das altas árvores e lá ficou. Ficou só, só com a lembrança de todo a amor que a princesa lhe dera, com toda alegria e leveza que ela lhe trouxera, mas, que, porém, ele não soube cultivar.

Ele chorou.

Ela chorou.

Daniela Tedesco Barcelos